
O HERSTORY CAFÉ SE INSPIRA NUMA longa TRADIÇÃO DE experiências e de espaços DE CRIAÇÃO E TROCA INTELECTUAL ENTRE MULHERES
um pouco de história
As mulheres, por muito tempo impedidas de frequentar os contextos de educação formal, precisaram ser muito inventivas para acessar e produzir conhecimento. Durante um longo período - os salões, clubes de leitura e mais tardiamente os cafés - configuraram-se como espaços essenciais para que conseguissem participar de conversações letradas, trocar experiências de leitura e ampliar repertórios para a atividade da escrita.
Desde seu surgimento no século XVII, os cafés se configuraram como um modelo de sociabilidade que favorecia a troca espontânea, o debate público e a circulação de ideias, ponto de encontro de intelectuais e artistas. No entanto, apesar do seu caráter democrático e aberto à experimentação, os cafés, enquanto espaços de intercâmbio letrado, mantiveram-se inacessíveis às mulheres pelo menos até a primeira metade do século XX. O Café de Flore e o Las Deux Magots, em Paris, foram precursores nesse sentido, com intelectuais como Simone de Beauvoir e Gertrude Stein os frequentando para ler, escrever e debater ideias.

Essa inserção tardia se deveu principalmente aos ideais de feminilidade que surgiram no final do século XVIII. Ao vincularem as mulheres à esfera doméstica, contribuíram para seu protagonismo em contextos de sociabilidade mais privada, como os salões literários, mas dificultaram o seu acesso a espaços públicos e insurgentes, como os cafés.
Resgatando a essência dos cafés enquanto espaços de intercâmbio intelectual, o Herstory Café se configura como um projeto que promove trocas entre mulheres. São cursos, projetos culturais e de sociabilidade, ofertados de maneira virtual e/ou presencial, para quem deseja se aprofundar na história e na literatura produzida por mulheres a partir de vivências inspiradas em ambientes e experiências históricas de intelectualidade e letramento femininos.
O termo HERSTORY foi escolhido para nomear esse projeto devido a seu papel simbólico no desenvolvimento do próprio campo da História das Mulheres. Durante as décadas de 1970 e 1980, as feministas da segunda onda viam o estudo da história como uma atividade dominada por homens e apresentaram "herstory" como uma forma de compensação. O termo, um neologismo em língua inglesa, representa a "história dela".
idealizadora
Anadir Miranda é historiadora, professora e pesquisadora independente. Possui doutorado e mestrado em História pela UFPR e especialização em Gênero e Sexualidade pela UERJ. Parte do seu doutorado foi desenvolvido na Inglaterra, junto à University of Southampton e à Chawton House Library, biblioteca especializada em escritoras do período moderno. Possui experiência docente e de pesquisa em História Moderna, Histórias das Mulheres, Proto-feminismos, Cultura Letrada Setecentista e Escritoras inglesas do século XVIII. Também é integrante do Núcleo de Estudos de Gênero da UFPR.

Em visita ao Café de Flore, em Paris.